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Esquecer uma palavra, reler uma página sem conseguir guardar o conteúdo ou ter certeza de que alguém contou algo e não conseguir recuperar a informação pode gerar preocupação. Mas nem toda dificuldade para lembrar significa que existe um problema na memória. Ansiedade, estresse, trauma e depressão podem modificar atenção, concentração e recuperação das informações, criando a sensação de que a memória está falhando quando, muitas vezes, o cérebro está sobrecarregado.

“Minha memória piorou muito”: será que o problema está realmente na memória?

“Eu sei que estudei isso.”

“Tenho certeza de que ela me contou.”

“O nome está na ponta da língua…”

“Minha memória piorou muito.”

Essas são algumas das frases que escuto com frequência no consultório.

Quase sempre, elas vêm acompanhadas de preocupação. Algumas pessoas acreditam que estão envelhecendo precocemente. Outras temem desenvolver uma doença neurológica. Há ainda aquelas que concluem, quase imediatamente, que “o cérebro não funciona mais como antes”.

Costumo responder com outra pergunta:

E se o problema não estiver na memória?

A sensação de que a memória falhou nem sempre significa que ela deixou de funcionar.

Muitas vezes, o que mudou foi o estado em que o cérebro está trabalhando.

Quando ansiedade, estresse, trauma ou depressão alteram esse funcionamento, a sensação costuma ser a de que a memória falhou.

Na verdade, ela frequentemente continua preservada.

O que mudou foi o estado em que o cérebro está funcionando.


Um cérebro preparado para sobreviver

O cérebro humano foi moldado ao longo da evolução para realizar uma tarefa fundamental:

Manter-nos vivos.

Muito antes da internet, do trânsito intenso ou das notificações constantes no celular, nossos ancestrais precisavam identificar rapidamente os perigos do ambiente.

Quem percebia uma ameaça antes dos demais tinha maiores chances de sobreviver.

Essa capacidade permanece presente em nosso sistema nervoso até hoje.

Quando o cérebro interpreta uma ameaça — física ou emocional — reorganiza temporariamente suas prioridades.

Passa a investir mais energia na vigilância do ambiente e menos em funções como aprendizagem, criatividade, planejamento e recuperação de lembranças.

É como se dissesse:

“Primeiro precisamos garantir a segurança. Depois cuidamos do restante.”

Do ponto de vista evolutivo, esse mecanismo é altamente adaptativo.

O problema surge quando o estado de alerta deixa de ser passageiro e se transforma em uma condição permanente.


Quando o perigo mora dentro da mente

Nem sempre o cérebro reage apenas a perigos concretos.

Preocupações constantes, conflitos familiares, dificuldades financeiras, excesso de responsabilidades, jornadas exaustivas de trabalho, perdas importantes e outras formas de sofrimento emocional também podem ser interpretadas pelo organismo como fontes de ameaça.

Stephen Porges, ao desenvolver a Teoria Polivagal, mostrou que nosso sistema nervoso está continuamente avaliando se o ambiente é seguro ou perigoso.

Essa avaliação acontece, em grande parte, de maneira automática.

Quando predominam sinais de insegurança, o organismo amplia seu estado de vigilância.

O coração acelera.

A musculatura permanece mais tensionada.

A atenção volta-se para possíveis riscos.

O cérebro passa a monitorar o ambiente quase o tempo todo.

Sob essas condições, lembrar onde as chaves ficaram deixa de ser uma prioridade biológica.


Ansiedade: quando a mente nunca descansa

Quem convive com ansiedade costuma descrever uma sensação bastante conhecida:

“Minha cabeça não para.”

Enquanto conversa com alguém, já está pensando na reunião de amanhã.

Enquanto trabalha, lembra das contas que ainda precisa pagar.

Enquanto tenta descansar, imagina tudo o que poderá acontecer nos próximos dias.

A mente permanece ocupada antecipando possibilidades e tentando prever o que pode acontecer.

Esse movimento constante consome recursos importantes da atenção.

Sem atenção suficiente, torna-se muito mais difícil registrar novas informações.

É por isso que muitas pessoas ansiosas afirmam:

“Eu li, mas não consegui guardar.”

“Acabei de ouvir isso e já esqueci.”

“Parece que minha memória desapareceu.”

Na verdade, muitas dessas informações nunca chegaram a ser registradas de maneira consistente.

O cérebro estava ocupado demais tentando lidar com inúmeras preocupações simultaneamente.

Não se trata de falta de inteligência.

Nem de falta de capacidade.

Trata-se de um cérebro sobrecarregado.


Quando o trauma muda a forma de lembrar

As experiências traumáticas também influenciam profundamente o funcionamento da memória.

Entretanto, fazem isso de maneira diferente da ansiedade.

Em situações de intenso medo, violência, negligência, abandono ou ameaça, o cérebro prioriza novamente a sobrevivência.

Nessas circunstâncias, nem sempre consegue organizar a experiência como uma narrativa contínua.

Segundo Bessel van der Kolk, muitas memórias traumáticas permanecem registradas de forma fragmentada, associadas a imagens, sensações corporais, emoções intensas ou pequenos recortes da experiência.

Isso ajuda a compreender por que algumas pessoas relatam:

“Lembro de partes.”

“Existem momentos completamente apagados.”

“Consigo sentir o que aconteceu, mas tenho dificuldade para colocar essa história em palavras.”

Não significa que a memória desapareceu.

Significa que foi armazenada de maneira diferente.

O cérebro fez o possível para sobreviver à experiência.

A elaboração costuma acontecer apenas quando o organismo encontra condições suficientes de segurança.


Quando a depressão também interfere na memória

Existe outro aspecto que também merece atenção.

A depressão.

Embora muitas pessoas associem esse quadro apenas à tristeza ou ao desânimo, alterações cognitivas também fazem parte do sofrimento depressivo.

É comum que pacientes relatem dificuldade de concentração, lentidão no raciocínio, perda da iniciativa e a sensação de que “a memória piorou”.

Na maior parte das vezes, porém, a dificuldade não está na capacidade de armazenar informações.

O problema começa antes.

A atenção diminui.

A motivação reduz.

O cérebro passa a economizar energia.

Como consequência, registrar novas experiências e recuperar lembranças torna-se muito mais difícil.

É como tentar iluminar uma sala com uma lanterna de pouca bateria.

Os objetos continuam no mesmo lugar.

Mas encontrá-los exige muito mais esforço.


Memória, emoções e cérebro caminham juntos

Durante muito tempo acreditou-se que emoções e cognição funcionavam separadamente.

Hoje sabemos que essa divisão não corresponde ao funcionamento humano.

Sentimos.

Pensamos.

Lembramos.

Aprendemos.

Tudo isso acontece de maneira profundamente integrada.

Por essa razão, compreender a memória exige considerar também a qualidade do sono, o nível de estresse, os vínculos afetivos, a saúde emocional e as experiências que atravessam cada momento da vida.

Nem toda dificuldade para lembrar começa na memória.

Muitas começam na forma como estamos vivendo.


Antes de perguntar “o que aconteceu com minha memória?”, existe outra pergunta importante

Diante de esquecimentos frequentes, talvez a pergunta mais importante não seja:

“O que aconteceu com a minha memória?”

Mas outra.

“Como anda o estado do meu cérebro?”

Em alguns momentos da vida, ele não precisa de mais esforço.

Precisa de mais descanso.

Mais segurança.

Mais tempo para elaborar aquilo que vem sendo vivido.

Porque um cérebro constantemente ocupado tentando sobreviver dificilmente consegue oferecer o melhor de sua capacidade para aprender, lembrar e criar novos caminhos.


Considerações finais

Dificuldades de memória nem sempre representam um problema da memória.

Muitas vezes refletem o estado em que o cérebro está funcionando.

Ansiedade, estresse, trauma e depressão não tornam as pessoas menos inteligentes. Tornam o cérebro mais ocupado em sobreviver.

Um cérebro ocupado tentando sobreviver encontra muito mais dificuldade para aprender, registrar e recuperar informações.

No próximo artigo, ampliaremos essa conversa para compreender por que pensar demais também pode se transformar em sofrimento.

Silmara Vicente
Psicóloga Clínica – CRP 06/52553
Uma prática que integra ciência, simbolismo e presença.

PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE ANSIEDADE E MEMÓRIA

1. A ansiedade pode causar problemas de memória?

A ansiedade pode gerar a sensação de falha de memória porque mantém a mente ocupada com preocupações e antecipações. Com menos recursos disponíveis para a atenção, novas informações podem não ser registradas de maneira consistente.

2. Por que esqueço coisas quando estou ansioso?

Quando o cérebro interpreta uma situação como ameaça, ele reorganiza suas prioridades. Mais energia é direcionada à vigilância e menos a funções como aprendizagem, planejamento e recuperação de lembranças.

3. Ansiedade pode causar dificuldade de concentração?

Sim. A mente ansiosa pode permanecer ocupada antecipando possibilidades e tentando prever acontecimentos. Esse funcionamento constante consome recursos importantes da atenção e pode dificultar a concentração.

4. Estresse pode fazer uma pessoa ficar esquecida?

O estresse e outras situações percebidas pelo organismo como ameaçadoras podem aumentar o estado de vigilância. Nessas condições, o cérebro prioriza possíveis riscos, e atividades cotidianas relacionadas à memória podem receber menos recursos.

5. Trauma pode afetar a forma como lembramos de uma experiência?

Sim. Experiências traumáticas podem ser registradas de maneira fragmentada, associadas a imagens, sensações corporais, emoções ou partes específicas do acontecimento. Por isso, algumas pessoas conseguem lembrar determinados fragmentos, mas têm dificuldade para construir uma narrativa contínua.

6. Depressão também pode causar sensação de memória ruim?

Sim. O sofrimento depressivo pode envolver dificuldade de concentração, lentidão de raciocínio e redução da iniciativa. Quando a atenção diminui e o cérebro passa a economizar energia, registrar e recuperar informações pode exigir mais esforço.

7. Por que leio algo e logo depois não consigo lembrar?

Uma possibilidade é que a informação não tenha sido registrada de maneira consistente. Quando a atenção está dividida entre diversas preocupações, torna-se mais difícil processar aquilo que está sendo lido ou ouvido.

8. Memória e saúde emocional estão relacionadas?

Sim. Emoções e cognição funcionam de maneira integrada. Por isso, compreender dificuldades de memória também envolve observar aspectos como qualidade do sono, nível de estresse, vínculos afetivos, saúde emocional e experiências vividas naquele período.

9. O que observar quando começo a esquecer muitas coisas?

Além dos esquecimentos, vale observar como está o estado geral do cérebro e da vida naquele momento. O próprio artigo propõe considerar descanso, segurança emocional e tempo para elaborar as experiências que estão sendo vividas.

10. Psicoterapia pode ajudar quando ansiedade e sobrecarga estão relacionadas aos esquecimentos?

O documento mostra que ansiedade, estresse, trauma e depressão podem modificar o estado em que o cérebro funciona e influenciar atenção, registro e recuperação de informações. Quando os esquecimentos aparecem junto a sofrimento emocional, compreender esse contexto é uma parte importante do cuidado.